domingo, maio 14, 2006

Cobrança eletrônica na Internet tupiniquim

Morro de medo toda vez que tenho que interagir com grandes corporações. Sei que aproveitarão a menor chance para me maltratar. Há dois anos tentei implementar uma cobrança on-line com cartão de crédito. Como meu banco tinha contrato com a Visa, foi esta a bandeira que escolhi para começar. Eles informaram que tinham cobrança eletrônica, era só apresentar uns trocentos mil papéis para me inscrever. Fiz toda a burocracia, foi um cara lá em casa e me entregou uma maquininha manual de cartão (que eu nunca usaria mas era obrigado a ter), e me informou das novas burocracias para ter comércio eletrônico. Superei-as e finalmente me informaram de um pequeno detalhe. O sistema deles só funcionava em Windows. Como meu servidor era Linux o trabalho foi todo em vão. Apesar de não poderem precisar quando, em breve teriam teriam uma forma de funcionar em unix. A eficiência deles é tão grande, que passados quatro anos ainda não sabem quando funcionarão em Linux. E olha que a taxa cobrada pela Visa aqui é mais que o dobro da dos EUA.

Recentemente fiz outra pesquisa de formas de cobrança eletrônica no Brasil e quero compartilhá-la com meus ainda inexistentes leitores. Veja que a pesquisa é pensando no meu caso: uma pequena empresa que usa GNU/Linux e que fará várias transações de pequenos valores. E que também não usei nenhum dos sistemas abaixo, apenas os avaliei com as informações disponíveis.

VisaNet
Como funciona: A Visa fornece DLLs que devem ser instaladas no computador que processa o pedido. Para confirmar a transação, estas DLLs se comunicam de forma segura com os servidores da Visa e autorizam ou não a compra.

Custos: Os custos estão inclusos na taxa de transação da Visa. Esta taxa é estabele­cida pelo representante da Visa ao fechar contrato com o cliente. Uma pequena empresa não tem muito como discutir isto.

Prós: Se quisermos aceitar cartões desta bandeira será necessário acertar um contrato. A burocracia terá que ser feita de qualquer jeito.

Contra: As bibliotecas funcionam apenas em computadores Windows. Se você usa Linux, terá que ter um novo computador apenas para esta funcionalidade. Quando a Visa atualizar as biblio­tecas, pode ser que o processo de compra deixe de funcionar, te obrigando talvez até a ter que modificar o código de seu sistema para torná-lo compatível com a nova versão.

Mastercard
Como funciona: Todo o processamento de comércio eletrônico é feito pela Mastercard através de seu siste­ma Komerci. O sistema de compras submete um formulário para o sítio do Komerci que processa a transação. Ao término, o sítio do Komerci redireciona a transação para o site do cliente com parâmetros indicado se a compra foi feita ou não. Os dados do cartão de crédito nem passam pelos servidores do cliente. Pelos menos isto é o que deduzi, pois eles se recusam a dar qualquer informação para quem ainda não é afiliado a eles. Reza a lenda que em algum lugar existe um manual do desenvolvedor.

Custos: Não consegui levantar custos. Os atendentes da RedeCard somente se su­jeitam a dar informações depois que a empresa se cadastra para aceitar cartões Cre­dicard. Por duas vezes, depois de me fazerem de bolinha de ping pong transferindo para um lado e outro, me deixaram es­perando até a ligação cair. Odeio isto!

Prós: Apesar da falta de informações técnicas, parece ser o de implementação mais fácil. Nada é preciso instalar no servidor, portanto é compatível com qualquer siste­ma operacional. Para aceitar cartões desta bandeira será mesmo necessário acertar um contrato com eles. A burocracia terá que ser feita de qualquer maneira.

Contra: Os caras não permitem uma configuração de teste do sistema, isto é, para se testar é preciso rea­lizar compras de verdade.

Locaweb
A Locaweb é uma empresa de hospedagem de sites que tem um serviço de comércio eletrônico extra. Infelizmente este serviço não pode ser contratado à parte. É preciso pagar o serviço de hospedagem, mesmo que não seja utilizado.

Como funciona: Durante o pedido, gera-se um formulário com os dados do pedido e do vendedor, que é submetido a um servidor especial da Locaweb. A transação passa a rolar no sítio da Locaweb, que pode te transferir para as operadoras de cartão. O cliente entra então com os dados do seu cartão, que é processado pelas operadoras. Ao término a transação é redirecionada de volta ao site do vendedor, com parâmetros na URL indicando se foi aprovada ou não. Parece incluir todas as possibilidades de transações eletrônicas brasileiras.

Custos: R$50 de inscrição + R$ 89,00 mensais para o plano mais simples incluindo o serviço de comércio eletrônico. Para utilizar o módulo de boleto bancário pode ser preciso comprar a licença do programa gerador de boletos do Cobrebem E-Comerce, que custa R$220,00, pago uma única vez. Os custos são fixos, independente do número de transações.

Prós: Eles abstraem a interface com os sistemas de cobrança e se preocupam em atualizar o que for necessário quando as operadoras de cartão modificarem seus pa­drões de acesso. Pode-se utilizar o serviço deles sem precisar hospedar nada A documentação disponível é bem detalhada e o suporte parece ser bom, pois minhas dúvidas foram respondidas prontamente por chat.

Contra: A partir do momento que submetemos a interface está a cargo da Locaweb e das operadoras de cartão, não temos controle de como será a experiência do usuário (parece que não há como fugir disto). É um serviço extra que precisa ser pago mensalmente. Fica-se dependente do servidor deles, havendo mais um ponto possível de falha no sistema. A sacanagem é que você está pagando pela hospedagem mesmo que não a use. Se eles oferecessem apenas o serviço de comércio eletrônico, seria uma ótima opção. O formulário que deve ser submetido é totalmente diferente para cada tipo de cobrança, o que nos obriga a fazer vários tipos de desenvolvimento. Eles bem que poderiam abstrair melhor esta interface para facilitar a vida dos programadores.

CobreBem
O Cobre Bem tem um produto gerador de boletos bancários muito utilizado e parece que foi expandindo seus serviços para outras formas de cobrança. Seu sítio tem um quê de nerd que eu até gosto. O serviço mais interessante que eles anunciam, o Cobre Fácil, que engloba a cobran­ça de cartões e boleto, ainda não existe, a previsão é que estará operacional no final de maio.

Como funciona: Tem vários serviços diferentes. O serviço de cartão de crédito se chama Aprova Fácil. É um “web service”. Instala-se um CGI em seu servidor que acessa os servidores da Cobre Bem. Parece não haver como customizar este CGI. O fato da interface ter que ser CGI pode dificultar a integração com outros sistemas (seria bem mais fácil passar parâmetros por linha de comando).

Custos: Eles têm um modelo interessante. Paga-se por transação. Até 50 transações mensais o custo é de R$39,00, o que é bem alto para se realizar transações de pequeno valor.

Prós: Como é um web service, eles abstraem a interface com os sistemas de cobran­ça e se preocupam em atualizar o que for necessário quando as operadoras de cartão modificarem seus padrões de acesso. O sistema funciona em Linux.

Contra: Preciso pagar pelas transações a priori. Caso as transações não sejam pa­gas, a compra não é completada. A aprovação da compra demora cerca de 10 segundos, tem­po acima dos limites de usabilidade toleráveis. Na descrição do serviço no sítio deles há menções a baboseiras de segurança que não fazem o menor sentido, como "chave de 32.768 bits"

Boletos Bancários
Uma opção que sempre existe e pode ser útil para quem não tem cartão ou tem medo de usá-lo na Internet. O saco é que a verificação de quem pagou não é automática, você terá que acessar sua conta de banco para ver quais pagamentos foram feitos. Você também perderá a "compra impulsiva", pois o cliente terá que ir pagar depois, tendo mais chances para desistir.

Alguns bancos, como o Banco do Brasil, oferecem o serviço de geração de boletos on line, mas, pela minha experiência, seus servidores não são muito confiáveis. Existem softwares, como do Cobre Bem que podem gerar estes boletos para você. As tarifas costumam ser fixas, o que é bom para altos valores, e razoavelmente altas, o que é péssimo para pequenos valores. Fale com o gerente de banco para ver se eles não dão algum desconto caso o boleto seja gerado apenas pela internet, com o cliente imprimindo em casa.

Vaporware
Além das opções acima, desconfio que outros façam serviços desta natureza. Por que desconfio? É que eles anunciam que prestam serviços de cobrança, mas quando você escreve pedindo mais informações ninguém te responde. É a turma do Vaporware.

Veja o caso do E-financial que descobri através de uma propaganda de duas páginas na revista do jornal Valor. Pela descrição, sua "solução" Smart Pag, faz cobrança de cartões de crédito de várias bandeiras e boletos bancários. Só que você confiaria seu sistema de pagamento para uns caras que não entendem nada de Internet? O sítio deles não funciona em Firefox, o fale conosco é primário e cheio de falhas, e pior, não oferece qualquer informação técnica que diga como o sistema integrará com o seu. Pedi estas informações e ninguém me respondeu. Já viu empresa de Internet que não responde email?

Outro nesta linha é o Braspag, que se auto-intitula "Maior integrador de meios de pagamento do Brasil", só que eles não dizem se é o maior em número de clientes, de transações, ou se somando a altura de de todos seus funcionários dará um valor acima de todas suas concorrentes. Mas vamos dar um desconto, talvez tenha sido apenas um idiota de marketing que escreveu isto. Anuncia que seu produto Pagador processa praticamente todos os tipos de transações eletrônicas. Eles parecem ser mais integradores, que vão desenvolver o software para você, do que vendedores de um serviço. Dizem que atendem a pequenas empresas, mas também não responderam a meu email solicitando informações técnicas detalhadas.

Outros serviços
Além destes sistemas existem outros serviços de lojas virtuais, como o Sacola.com, o Correios.net(fora do ar neste instante) e o 0001.shop.com.br. O problema destes serviços e de outros similares é que eles dão poucas opções de customização. São voltados simplesmente para venda de produtos on line. Só serão uma boa opção se este for seu problema for uma loja tradicional com algumas dezenas de produtos.

Uma opção interessante para alguns casos é o velho PayPal, que hoje em dia aceita pagamentos via cartão sem exigir que se registrem. Como vantagem, há a facilidade de integração com qualquer coisa. Por outro lado há dois sérios problemas. Um é que só aceita cartões internacionais, algo que é menos comum que se pensa por aqui. Outro é que eles não transferem para sua conta em bancos tupiniquins. Você ou precisa ter uma conta lá fora, ou pagar uma boa grana para o Banco do Brasil (acho que está em US$30) cada vez que for descontar seu cheque aqui. Para resolver isto há uma empresa que diz que faz uma mágica financeira e após uma comissão de 6% deposita seus fundos em uma conta de banco brasileira. Também pode ser interessante para quem pretende gastar a grana por lá usando a própria moeda do PayPal.

O prêmio de criatividade vai é para a empresa NetPay, ligada à uma operadora de telefonia. Desconfio que os principais clientes sejam sítios de sacanagem. Funciona da seguinte maneira, você liga para um telefone tipo 0900 e enquanto a ligação rolar você tem acesso à área restrita. É a primeira vez que vejo uma situação em que quem tem ejaculação precoce se dá bem!

Créditos foto

Um comentário:

Henrique Albuquerque disse...

Paulo,
Obrigado por compartilhar conosco esse levantamento extremamente útil na criação de novas soluções web brasileiras. Devo dizer que não é fácil encontrar conteúdos tão bem descritos sobre cobranças com cartões de crédito por aí.
[]s
Henrique
NetworkingEnergy